5:42 am. Não paro de pensar nesse companheiro distante, frio e solitário, desqualificado por alguém por que sua existência não foi o bastante. Os olhos ardem e a falta de sono me faz pensar ininterruptamente. Talvez o problema seja da ansiedade. É como uma âncora amarrada aos meus tornozelos. Me arrasta para o fundo de um grande mar de pensamentos e paranoias que se multiplicam sozinhos feito bactérias em tecido infectado. Creio que minha mente esteja infectada. Repleta de pensamentos intrusivos que corroem minha mente e paralisam meu corpo. Sinto dores de cabeça. Talvez as bactérias já tenham destruído metade dos meus neurônios. Ansiedade.
Me apavoro quando começo a perceber que não consegui se quer pregar o olho por alguns minutos. O dia começa a nascer e sei disso pois a luz dos primeiros raios de sol invadem as frestas da porta do meu quarto e a janela ao lado da cama. Penso nele novamente. O companheiro distante. Abro o google e pesquiso sobre ele. Plutão. Os olhos ardem em contato com a tela fria do celular. Plutão. Não mais um planeta, ainda assim uma "pequena" grande parte do universo. Sempre pensei que Plutão fosse de alguma forma um companheiro distante e solitário. O amigo legal porém esquecido. O cara de poucas palavras com tanto para ser dito. Isso me fazia pensar que assim como Plutão, não importava se eu fosse estranho, incompreendido, solitário ou distante, ainda assim eu fazia parte de algo maior, mesmo sendo uma parte exageradamente minúscula desse incalculável universo, eu continuo sendo uma partícula que o compõe.
A chuva cai sobre o telhado. Sinto pingos de chuva molharem sorrateiramente meu rosto. Desligo o celular e deixo a orquestra dos gotejos de chuva me levarem para dormir. Sem sucesso. Penso em viajar mentalmente para 149 600 000 km de distância. Assim aterrisso em Plutão. Me sinto próximo e de certa forma conectado à um planeta (bem, não tão planeta assim, ainda contudo, um corpo celeste morando "lá fora", correndo sorrateiro entre as estrelas). Não somos também planetas particulares? Orbitando o caos.
Me compadeço do companheiro gelado, pois alguém decidiu que Plutão não se qualificava para ser planeta. Tragicômico é pensar que assim como ele nós somos rotulados ao que o mundo impõe como o que somos ou não podemos ser. Somos desclassificados pois não atendemos aos requisitos. Pseudo pai, pseudo escritor, pseudo artista, pseudo amor, pseudo alguma coisa. Em algum momento alguém irá nos dizer que não somos o que pensamos/queremos ser. Mas quando se é dito que alguém é pseudo alguma coisa, quem faz a afirmação precisa ser dono absoluto da verdade. Apenas um verdadeiro e absoluto escritor pode acusar alguém de ser um pseudo escritor. Essa é uma tentativa de desqualificar alguém ou algo. Pseudo significa falso. É tudo aquilo que tenta ser completo e inteiro, mas não é. Pseudo é algo que busca ser algo que ainda não alcançou. Um ser feito de tentativas.
Penso enquanto leio sobre o pseudo planeta. Somos todos pseudos. Ansiamos ser coisas que talvez nunca sejamos. Sempre irá existir uma lacuna, um pequeno espaço, um vão a ser preenchido com mais e mais. Não somos o que aparentamos ser, somos algo num espectro frágil de sonhos e tentativas. Num mundo onde os ideais e os sonhos são pré fabricados, onde definições são mais importantes que a busca e a tentativa de sermos seres melhores, ouso afirmar em essência: somos todos pseudo alguma coisa. A incerteza e impermanência da vida costumam desequilibrar nossas maiores definições e tudo aquilo que pensamos que somos. Logo, talvez sejamos falsas representações de quem afirmamos ser, por isso, prefiro afirmar não ser coisa alguma e continuar aspirando ser alguém melhor a cada novo dia. Desprendido de achismos. Pseudo é aquela ínfima parte, lacuna ou espaço que vivemos para preencher. É aquele 0,1% que nos separa do que sempre queremos ser, mas que nunca se torna o bastante. É o quase que nos faz seguir em frente. Pseudo.
A mente borbulha em pensamentos. A barra de informações desliza apressadamente entre um artigo e outro. Documentos da NASA. Provas científicas. Os pensamentos se proliferam. Em algum momento terei que parar de pensar tanto. Quando estudava no colegial alguns colegas bem intencionados me chamavam de cabeça de computador. Sinto agora meus circuitos internos falhando. Mas não há antivírus que impeça os pensamentos de dominarem meu território encefálico.
Durante a madrugada, escravo de mim mesmo, descobri que Plutão tem mais em comum comigo que meia dúzia de amigos. E se não bastasse todo seu histórico descubro um imenso coração gelado que habita em seu vasto território. Coberto pelo abraço frio de gelo, ele vive uma realidade fria como um eterno domingo de inverno. Me surpreendo porém com o fato do céu de Plutão ser azul como o nosso céu. Levanto-me da cama. Vou ao meu quintal. Meus pés imergem nas poças de água que a chuva formou. Pequenos oceanos minúsculos. Olho pro céu límpido e azul das 6 da manhã e me ponho a pensar que olhando o céu azul aqui da minha varanda se por infinita que seja a possibilidade não esteja vendo o mesmo tom de azul que o céu de Plutão.
Uma brisa fresca arrepia a superfície do meu corpo. Penso no frio que Plutão abriga, na solidão em seu gélido coração azul. Penso em seu lugar no espaço, sozinho porém liberto. Penso em sua condição de pseudo planeta. Sou um pseudo plutão. Desacreditado, desengonçado, não me encaixo, solitário, entre invernos, um falso ser que mal sabe o que representa para o mundo e ainda assim, nada disso me faz ser menos parte do universo. Um leve sorriso escapa ao curvar meus lábios. Todos somos um pouco como o companheiro gelado, passando dias solitários e invernos rigorosos dentro de nós mesmos. Mas no fim das contas, ainda haverá um céu azul cintilando em algum lugar no meio do universo. Com isso, sempre haverá espaço para ser melhor do que fomos ontem.
Esquento um café. Sento na varanda ainda molhada. Cravo os pés na terra. E aproveito o céu aberto nascendo em um vívido azul, tipo o azul do céu de Plutão. Penso no caos que move o universo. A explosão do vazio em sua forma mais pura, o silêncio que paira naquela escuridão toda. Estrelas selvagens explodindo dentro de nebulosas, nascendo e morrendo enquanto se tornam a poesia de alguma alma que as observa a quilômetros de distância. Buracos negros, galáxias. E lá nas bordas dessa imensidão Plutão se escondia, no meio da quietude dessa vastidão negra forrada de corpos luminosos, o companheiro solitário permaneceu calado por anos, vivia seus dias em profundo e absoluto silêncio.
Quem imaginaria que ele um dia iria sussurrar das profundezas de sua existência que o amor viaja mais rápido que a velocidade da luz e não existe nada que o impeça de brilhar tão mais intensamente que qualquer astro que habite o universo. Afinal, o amor ultrapassa o vazio ocupado pelo espaço e não há barreiras que o impeçam de se propagar. O amor é o único caos que ao invés de bagunçar, transcende nossa existência. Ser um pseudo plutão é aceitar com amor não ser nada e ainda assim continuar sendo uma pequena parte de um tudo. Amor é tipo isso, você não dimensiona, você só é atraído pra girar em sua órbita.
6 e 24 da manhã.
para tudo e para todos que compartilham um pouco do seu próprio caos com o universo.
com amor, plutão.

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